Cada um é seu próprio livro de cabeceira

Peter Greenaway filmou, em 1996, o clássico O livro de cabeceira (The pillow book). Denise Lopes elaborou esta resenha do filme:

“Em 1970, em Kyoto, um calígrafo grafa delicadamente na face da sua filha, como um presente em seus aniversários. Quando ela se torna uma mulher, Nagiko (Vivian Wu) — a filha — lembra sempre disso com excitamento e procura achar um calígrafo, amante ideal, que use seu corpo como seu papel. Em Hong Kong ela conhece Jerome (Ewan McGregor), um tradutor inglês que a convence que ela pode ser a pena e não o papel — ela deve escrever no corpo dele e ele irá levar o que ela escreveu em seu corpo para um editor. O plano vai bem. Ambos amantes começam a ficar com ciúmes recíprocos, ela do editor, ele porque ela, impacientemente, escreve nos corpos de outros homens. Numa tentativa de ter Nagiko de volta, Jerome trapaceia com a ideia do seu próprio suicídio, o que acaba resultando na sua morte. Nagiko se desespera, escreve um belo poema erótico no corpo de Jerome e o enterra. O editor exuma o corpo de Jerome, e escalpela sua pele para fazer um precioso livro de cabeceira com o texto de Nagiko. A mulher fica horrorizada. Planeja persuadir o editor a abandonar o livro da pele de seu amante enviando a ele alguns belos jovens calígrafos, o último que chega até o editor o executa. O livro de cabeceira de Jerome retorna para Nagiko e ela o guarda no solo de uma árvore de bonsai.”

Jerome (McGregor) e Nagiko (Vivian Wu) em uma das cenas do filme

É interessantíssima a odisseia por que passa Nagiko e a sua obsessão pela busca de papéis de boa qualidade para escrever seu próprio livro de cabeceira.

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Marina Abramović concede entrevista à Folha Ilustrada

Marina Abramović foi entrevistada, no dia 16 de novembro, pelo jornalista Fabio Cypriano, da Folha Ilustrada. A matéria foi publicada hoje, 17 de novembro – nas versões impressa e online (clique AQUI) -, e aborda questões relacionadas à vida e à arte de Marina, que tem sua nova mostra, “Back to Simplicity” (de volta à simplicidade), exposta na galeria Luciana Brito, entre os dias 18 de novembro e 29 de janeiro de 2011).

Marina posa no hotel Fasano, em São Paulo. A foto é de Letícia Moreira, da Folhapress

A artista defende que trabalhos de longa duração (performances) têm a capacidade de mudar o artista ou quem o observa, mas, para tal, demandam tempo realmente longo de duração, porque, ao contrário disso, não passam de atuação. Em “Back to Simplicity”, Abramović retoma atividades cotidianas simples e que vêm sendo esquecidas pela sociedade de consumo.

Marina já foi tema de um post de Incorpóreos. Clique AQUI para mais detalhes.

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Santaella e a definição de ‘sintoma da cultura’

Santaella desenvolve papel importante nos estudos de comunicação

Lucia Santaella – é professora titular da PUC-SP, pesquisadora do CNPq e tem mais de 300 trabalhos publicados – desenvolve estudos nos campos da comunicação, dentre eles a semiótica cognitiva. Muitas das suas publicações tratam do corpo e da comunicação e tentam explicar a relação, cada vez mais intensa (e intrínseca), entre eles.

Santaella defende que o corpo tornou-se, nos nossos tempos, um agente sintomático. “Diferentemente dos sintomas do século XIX, que se davam no corpo, que marcavam o corpo, gradativamente esses sintomas foram crescendo até tomarem o corpo ele mesmo como sintoma da cultura” (2008). Antigas sequelas, que, geralmente, incidiam na corporeidade, agora tomaram o próprio indivíduo como vetor. O corpo é um espelho de nossa sociedade.

Isso quer dizer que o ser humano vê-se destinado a viver sob padrões estéticos criados pelo próprio ambiente. Quando não há encaixe nesses modelos, o corpo tende a sofrer as agruras contemporâneas. É muito comum conhecer pessoas que estão sempre à procura de felicidade (como se a realização estivesse somente na sua corporeidade) e, quando não a alcançam imediatamente, sentem-se frustradas, fadadas ao fracasso.

Lucia Santaella defende, ainda, que as mídias tiveram – e têm – papel fundamental nessa nova configuração da realidade, pois suscitaram essas pseudonecessidades. “Na sociedade do espetáculo, a hipervalorização da aparência física do corpo é fruto de sua excessiva exposição no espaço público” afirma a pesquisadora, em seu livro Corpo e comunicação – sintoma da cultura. Ademais, esse caráter do pós-moderno foi conferido pela maximização das possibilidades (ou a sensação de), obtidos pelos avanços na medicina, na engenharia e na biologia.

Leia mais no artigo de Santaella, O corpo como sintoma da cultura, clicando AQUI.

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A imagem subjetiva e os efeitos socioculturais das modificações corporais de maior intensidade

Lucky Diamond Rich é o homem mais tatuado do mundo. Ele tem 100% do corpo coberto e está no Guinness Book

A body modification consiste em processos de incisão corporal, que têm como objetivo principal a reconfiguração da imagem – às vezes, para parecer um animal ou um esqueleto (clique AQUI); às vezes, propõe algo que não tenha um referencial específico e somente torna os adeptos diferentes das demais pessoas – e consiste numa marca da nossa sociedade. Sua história não é nova: a body modification é comum entre descendentes de povos antigos, mas só atingiu os atuais níveis de aprimoramento com os avanços de processos técnicos extra, inter e intradermais.

A principal característica é o fato de que a body modification não tem razão médica, ou seja, é espontânea e não se dá no intuito de reconstruir partes de um todo (como acontece, por exemplo, quando da colocação de pinos na perna, depois de um acidente de carro). As intervenções mais comuns são o branding, a bifurcação de língua, a escarificação, os implantes subcutâneos (de silicone e de teflon) e a suspensão.

Erik Sprague é conhecido como "Homem-Lagarto"

A adoção da ‘arte da modificação’, mesmo que cause aflição e surpresa em algumas pessoas, é mais do que uma vertente artística: é um estilo de vida. O questionamento, diante dela, entretanto, refere-se à razão pela qual inúmeras pessoas são motivadas a alterar, permanente e deliberadamente, o próprio corpo. Querem os body modifiers apenas a distinção das outras pessoas ou almejam retratar o repúdio à atual realidade, e, por isso, se utilizam da metamorfose? Ou são eles  apenas artistas contemporâneos? O que querem, afinal, nos comunicar?

Assista ao programa sobre ‘Modificações corporais‘ (Tribos, do Multishow): clique AQUI. Vale a pena conferir.

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We love you, Terry

Terry é um conceituado fotógrafo de moda

O norte-americano Terry Richardson é um fotógrafo famoso no universo da moda, devido aos cliques provocantes e ao ineditismo das poses que o profissional consegue diante de sua câmera. Richardson já trabalhou para as marcas Gucci, H&M, Sergio K., Sisley, Vogue, Yves Saint-Laurent, dentre outras, e já fotografou para revistas como Alfa, GQ Magazine, Purple Fashion e VMan. Atores da série Glee já estiveram sob a mira do fotógrafo.

Quando não se tratam de fotografias encomendadas por marcas famosas, as celebridades geralmente vão ao seu estúdio e são clicadas diante de uma parede branca. Terry gosta de expor a beleza de modelos, atores, atrizes, cantores e desconhecidos. O Tumblr do fotógrafo é recheado de superimagens, inclusive de desconhecidos, de lugares e de objetos. Richardson também faz registro de pessoas que desejam posar nuas para ele e disponibiliza uma área, em outro site, somente para contatos com essa finalidade.

Muitos famosos, como Jared Leto, Justin Timberlake, Leonardo DiCaprio, Lindsay Lohan, Macaulay Culkin e Mary-Kate Olsen já estiveram diante de suas lentes, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Os brasileiros Jonatas Faro e Danielle Winits também já posaram para Terry.

Richardson é, sem dúvidas, um corpólatra nato. Suas fotografias exploram a libido, por meio do exacerbo de beleza contido nelas. Ainda que, em muitos de seus cliques, não haja ninguém figurando na imagem, é possível, em algo que, metaforicamente, chamam de alma da fotografia, sentir a presença da corporeidade.

Na internet:

Terry Richardson | Terry’s Diary | Twitter | Facebook

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